Cara ou Coroa? No futebol e na vida

Por Por Gilberto Cavicchioli . Profissional S/A - Artigos

“O homem tem de poder escolher a vida em todas as circunstâncias.”
— Jean-Paul Sartre

É um jogo simples,  utilizado nas situações em que é obrigatório escolher entre duas alternativas, com a mesma probabilidade de ocorrência – 50% para cada lado. O jogo surgiu na Roma antiga (300 a.C.), com o nome de navia aut caput (navio ou cabeça) –  a imagem de um navio em uma face da moeda e a do imperador na outra.

O lado anverso, a cara da moeda, é sempre sua face principal representada por um rosto, uma efígie ou emblema. O lado reverso, a coroa, secundário segundo estudos numismáticos, é o lado que mostra  um número, o valor monetário.

Estamos em plena Copa do Mundo de Futebol, e o jogo da cara ou coroa entra em campo em todas as partidas. Consta nas Regras do Futebol (Futebol Association Board ); é a na Regra nº 8, sobre o início e reinício dos jogos. Arremessar a moeda para cima é uma tradição, um momento lúdico, um pré-jogo, tendo os capitães dos dois times se cumprimentando e, a mando  do juiz, que manuseia a moeda e arremessa para o alto na frente dos jogadores, esperam a queda e o resultado. Vence quem escolher a face da moeda que cai com o lado para cima.

No futebol, o vencedor que escolheu a face da moeda que cai para cima, decide para que lado do campo sua equipe vai atacar.

Interessante é que ao longo dos anos, no futebol por exemplo, inventado na Inglaterra em 1863, se mantém essa tradição dentre uma grande variedade  de modernidades aplicadas ao esporte bretão. O material empregado na confecção das bolas, por exemplo, ou no tecido dos uniformes, nas metodologias dos treinamentos físicos, sem falar na tecnologia da informação, que passa por  esquemas táticos discutidos em campos virtuais e softwares complicadíssimos usados nas transmissões das partidas e imagens de alta resolução na TV. O chip embutido na bola, que era inédito em jogos, nesta Copa, tornou-se importante apoio para os árbitros nos lances mais difíceis perto da linha divisória do campo. A bola entrou ou não?  Agora, virou coisa do passado.

Daí pode vir a pergunta: Por que dentre tanta inovação o jogo de cara ou coroa,  persiste na maneira de se escolher o lado do campo ou a bola?

Por ser rápido? Certamente que não. Pela sua simplicidade, talvez.

A cara e a coroa,  se mantém, talvez, pois cotidianamente estamos defronte a escolhas nas nossas vidas, direções bifurcadas,  que determinarão caminhos entre alcançar o sucesso ou o fracasso, jogar contra ou a favor do sol ou enfrentar tormentas ou calmarias. Depende da face que cair para cima, ou então, se escolhemos o aparentemente melhor ou pior naquela circunstância. Ou o mais fácil ou difícil. A moeda sobe e cai depressa. A decisão sai rápido.

Quantos de nós introduzimos em nossas vidas – tanto pessoal quanto profissional -, engenhocas ou, usando termo atual,  gadgets sofisticados, nada baratos na sua maioria, para nos orientarem em nossas escolhas e decisões?

Nós humanos estamos envolvidos quase sempre em dualidades. São escolhas que nos proporcionam a sensação do melhor, do certo, envolvendo sentimentos  no campo emocional e racional. Comportamentos com  alegria ou tristeza, atividades de noite ou de dia, situações que exigem um sim ou um não. Parece que uma complementa a outra, entre o que é real e o imaginário.

Decidir entre a cara ou coroa nos remete às escolhas de nossas próprias vidas. Se escolhemos uma face, a cara por exemplo, automaticamente a outra face fica para alguém. Ou para nós mesmos. A opção de decidir sobre a face que será decisiva nos dá o poder da escolha.

Quando a moeda é jogada para o alto, suas duas faces se sobrepõem girando em torno de um eixo, dando a ilusão ótica de que são as mesmas. Só que não são. São, na realidade opostas e cada face provocará um resultado específico, um destino diferente, inédito.

Lidamos todo o tempo com diversas faces de diversas moedas, representadas pelos nossos desafios e escolhas cotidianas. O movimento vertical e a rápida rotação da moeda se confunde com a velocidade dos acontecimentos em nossas vidas o que nos impõem decisões a todo tempo. É cara ou coroa.

Para nossa sorte, o universo não interpreta as oportunidades como ganhas ou perdidas. A que ficou para trás, alguém pegou. Conforme cai a face para cima, pagamos um preço diferente. Se cair do lado que escolhemos, ganhamos. Do contrário perdemos.

Sabemos que somos aquilo que escolhemos ser. O destino tem pouco a ver com isso. As alternativas no funil das nossas decisões são sempre duas e jogar cara ou coroa pode ser filosofia de vida, embora nem sempre a vida nos deixe opções simples assim.

Gilberto Cavicchioli
professor na pós-graduação da ESPM em Gestão de Pessoas e Vendas