O complexo comportamento provocado pelo isolamento social trouxe mudanças profundas no relacionamento entre as pessoas, sejam familiares, amigos e até colegas de trabalho. Sem exceção, em algum grau, todos alteraram suas rotinas, seus hábitos e estilo de viver.

Na mudança do “jeito de agir”, ganhou força uma nova modalidade de trabalho: o remoto, ou home office, com um surpreendente sucesso. Isso mostra que a mobilidade, se bem administrada, traz novas oportunidades, além de, é claro, desafios.

Os povos da pré-história eram nômades – ou seja, exploravam os recursos de uma área e depois mudavam de lugar, continuamente, para sobreviver. Essa observação permite fazer uma analogia com este tipo de profissional da atualidade – o nômade digital.

Segurança e competência

Essa nova figura do mercado trabalha sem local determinado, numa realidade em que o endereço fixo tem pouca importância, pois pode exercer sua atividade de vários locais, desde que esteja conectado, online, e que tenha estrutura, segurança e competência para desempenhar suas tarefas. E pode também administrar sua jornada flexível, para entregar os resultados esperados no prazo estipulado.

Empresas dos mais variados setores da economia já constataram as vantagens dessa mobilidade, embora algumas atividades de serviços exijam a presença física e simultânea dos interessados na prestação do serviço.

O trabalho remoto, digital, realizado de forma nômade, sem local de atuação fixo, ainda provoca na mente das pessoas a imagem de alguém trabalhando numa praia ensolarada, mar azul ao fundo, com um notebook no colo.

Mas quem já experimenta a modalidade remota pôde descobrir que essa imagem serve apenas para postar no Instagram e provocar os amigos. Não é bem assim. Muitos já reservaram um quarto ou um cantinho da casa para montar o seu espaço de trabalho.

A realidade do trabalho digital exige organização, disciplina, concentração e impreterivelmente, um local adequado e bem estruturado para atender às demandas complexas e específicas do cotidiano de todo profissional.

Liderando à distância

Por isso, quem trabalha na gestão de pessoas já sente e se vê diante de novas questões. Uma: “Como gerenciar o funcionário que acabou de mudar para o regime remoto?” Outra: “Como mantê-lo produtivo, motivado e engajado?”
Até para os mais experientes é desafiador prever em quais circunstâncias o trabalhador nômade digital terá as “novas” competências exigidas para manter-se dentro das exigências de qualidade necessárias para atender demandas específicas dos clientes.

Na esteira destas questões, líderes de equipes deverão rever os métodos de gestão, a fim de manter a qualidade dos serviços, o desempenho e a eficiência da equipe de funcionários.

Seguem, nessa linha, algumas sugestões:

1. Demonstrar que a empresa está atenta à segurança do colaborador e à estrutura mínima necessária para desenvolver bem o seu trabalho;

2. Prover o colaborador remoto de condições para manter-se em comunicação com os colegas e com os clientes via canais como site, WhatsApp, e-mail, entre outros. Ou mesmo presencialmente;

3. Fornecer feedbacks frequentes sobre o andamento e resultados das atividades remotas;

4. Manter diálogos com os colaboradores a respeito de possíveis preocupações, estresse e ansiedades provocadas pelo menor convívio com colegas, a chamada sensação de não pertencimento;

5. Pedir feedbacks de alguns colaboradores, tanto dos mais quanto dos menos experientes, para conhecer o que está dando certo e o que precisa receber ajustes para elevar a eficiência na gestão.

O estilo de liderança da equipe merece atenção especial nessa fase de tantas mudanças. A liderança situacional – tanto das atividades remotas quanto nas presenciais – será a forma mais usual de influência daqui para frente. Nesse estilo de liderança, o líder desenvolve habilidades diferenciadas, para identificar em cada situação de trabalho o grau de maturidade dos colaboradores para desempenhar aquela tarefa ou responsabilidade específicas.

Males que vem para o bem

A construção de vínculos, a motivação e o alinhamento de expectativas serão elaborados e desenvolvidos de outras formas, considerando o trabalho remoto e o presencial convivendo simultaneamente.

Trabalhar com flexibilidade de local e de horários não significa tornar-se o seu próprio chefe. E nem deixar os funcionários se sentirem como tal. Para um trabalho remoto funcionar bem, é preciso autodisciplina, automotivação e foco nos resultados. São competências obrigatórias.

Lidar com a falta de convivência com colegas também poderá pesar na balança nessa modalidade móvel de trabalho. Mas isso poderá ser compensado em reuniões no estilo happy hour, para os colaboradores conversarem de forma mais descontraída e se integrarem mais.

Os avanços da tecnologia permitiram que parte das funções ganhe flexibilidade diante da pandemia. Se ela ocorresse 30 anos atrás, ninguém seria capaz de trabalhar.

Nossas vidas, pessoais e profissionais mudaram. O grau de exigência quanto à agilidade e qualidade dos serviços também mudou. Cabe a cada profissional avaliar o que se encaixa na sua atividade e descobrir a melhor forma, presencial ou à distância, de manter clientes, internos e externos, muito satisfeitos.

Até a próxima.

Por Gilberto Cavicchioli

Consultor de empresas, é professor da ESPM, Fundação Getúlio Vargas e SENAC; realiza palestras motivacionais, treinamentos e capacitação de pessoas no ambiente de negócios, coordena o site profissionalsa.com.br, é colunista em revistas especializadas e é autor dos livros: O Efeito Jabuticaba e Cartórios e Gestão de Pessoas: um desafio autenticado.

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